30/03/11

SOFRIMENTO. QUE SOFRIMENTO?

Para que eu possa ­fazer essa minha birrenta analogia estou confessando: domingo eu assisti ao programa do Faustão. Era o menos pior destes programas dominicais, mas minha sogra passou o domingo em minha casa e não pude escapar, assisti. Para as pessoas que como eu assistiu o Faustão neste último domingo puderam ver que ele apresentou os artistas melhores do ano. Quer dizer, os melhores do ano para a TV Globo são os artistas da casa. O dito apresentador tem a mania de entrevistar uma pessoa e falar mais que o homem da cobra, o insiste em fazer a pergunta e induzir a resposta conforme sua conveniência. Pois bem, a uma das melhores segundo a produção da emissora, o Faustão perguntou: Tem muita gente que acha que para ganhar um premio deste um artista não teve luta e nem sofrimento, basta ser bonita né não? A moçoila respondeu: Sim a gente sofre muito, eu, por exemplo, quando sai de casa para estudar nos Estados Unidos foi muito difícil, fiquei longe de minha família e senti muita saudade. A resposta foi mais ou menos por aí, não me importa, o que me chamou a atenção foi ele dizer que sofreu por ter ido estudar nos states.

Pensem comigo. Estudar em Nova York, curso pago, várias opções de vida noturna, boates, teatros, cinemas, intercâmbios com cursando do mundo todo devo imaginar o quanto essa moça deve ter sofrido.

Laudinha voltou para casa com o bucho cheio. Bucho Cheio nada mais é que Grávida, quando aqui cheguei, lá pelos meados da década de 80 achei esta expressão meio esquisita como tantas outras expressões, me acostumei, já não acho tanto esquisito assim. Laudinha é o diminutivo de Lauridianéia. Laudinha morava no seringal, da cidadezinha mais próxima ficava a uns 15 km, estudava na cidade, ia a voltava da aula em transporte escolar público, Ela cursava o ensino fundamental, seu sonho e o sonho dos seus pais era ver Laudinha fazer o ensino médio e até um curso superior na cidade grande. Como tantas outras meninas adolescentes da idade de Laudinha era ser professora, médica, é se achando toda bonitinha ser modelo.

Com tantos sonhos Laudinha foi para a cidade grande, foi morar com uma tia, irmã de seu pai. Na cidade grande Laudinha matriculou-se numa escola pública para fazer o ensino médio, certo que depois prestaria vestibular e depois uma faculdade de seus sonhos.

A princípio tudo bem, de dia colaborava com a tia nos serviços domésticos e a noite estudava. Trabalhar muito Laudinha não se importava, pois foi acostumada com rudes serviços no seringal, até não se importava muito quando a tia começou a regrar a alimentação, só não deu de suportar quando se viu assediada pelo esposo de sua tia. Laudinha foi trabalhar fora da casa da tia, primeiro um emprego de frentista de posto de gasolina depois em uma lanchonete, da mesma forma trabalhava de dia à noite estudo.

Menina moça trabalhando na lanchonete resistiu o quanto pode os assovios e piscadas dos clientes, mas já com o desejo sexual lhe perturbando a mente, que lhe é de direito não resistiu à conversa doce de um rapagão cliente da lanchonete, carente como estava cedeu às promessas de uma vida melhor do gajo.

Laudinha voltou para a casa dos pais com o bucho cheio depois de abandonada por quem lhe prometeu uma vida tranqüila. Nasceu sua filhinha, adeixou com os avôs e voltou para a cidade grande prometendo trabalhar para garantir bom futuro a sua filha.

Não tive mais notícia de Laudinha, não sei se um dia a verei nestes programas dominicais na TV contando sua vida e fazendo a alegria dos demagógicos apresentadores dos tais programas. O que vemos são a Laudinha e tantas Laudinhas sendo exploradas nas reportagens totalmente politiqueiras.

Não acredito que estudar nos Estados Unidos seja tanto sofrimento assim.

6 comentários:

Cacá - José Cláudio disse...

Ali na televisão se fabricam heróis e heroínas para servirem de exemplo (???). É duro ter que ver millhões de meninos e meninas se espelhando naquela realidade que de real só tem o depois, quando a pessoa já está no brilho efêmero da fama. A dureza que cada um enfrenta por esses rincões do Brasil é muito mais complexa do que uma "dificuldade" de quem tem a oportunidade seleta de ir estudar em outro país. Sua analogia ficou excelente, meu grande Simei. obrigado pela visita, que me alegra muito. Abraço grande e em todos os seus.

PS: meu irmão vem se recuperando lentamente (da quimioterapia), mas progressivamente. Agora é o meu velho, que está com 4 veias entupidas no coração. hoje ou amanhã deverá ser submetido a uma cirurgia de risco por causa da idade. Obrigado Simei.

Ana disse...

Não, tio. Nãaaaaao! Ex-gordo-que-ficou-magro-e-murcho nãaaaao!

everaldo disse...

...primeiro...me perdoa por não ser tão suficientemente, inteligente, quanto este Cacá aí de cima, para frequentar mais este seu cantinho.
A internet expandiu demais o nosso mundico, que a gente fica meio desorientado.
Um grande abraço meu irmão.

everaldo disse...

...né não ???

Cacá - José Cláudio disse...

Oi, Simei, tá tudo bem por aí? Desejo que sim.
Meu abraço. Paz e bem.

Cacá - José Cláudio disse...

Simei, meu bom. MUITO OBRIGADO pela solidariedade e pelo carinho nesse momento ainda tão dolorido para mim. Meu pai foi talvez o melhor exemplo que tive na vida de retidão, de luta coletiva, de doação para uma comunidade por toda a vida e mais do que um pai, foi um amigo para tudo e para todas as horas.

Valeu, meu amigo, foi muito bom "escutar" suas palavras de alento e apoio. Meu abraço (extensivo à sua Princesinha e a toda a família). Paz e bem.